Marcelo e Juliana  escrito em quinta 06 novembro 2008 22:39

amor, sofrimento, dor

O sol desperta atrás do monte. As nuvens caminham sob o azul céu. Juliana, moça judia, desperta de seu sono e com seus olhos castanhos fita seu quarto. Joga suas mãos para um canto, liga seu rádio. “O Füher estará em Munique nesta quarta-feira”, fala o comentarista. Juliana levanta seu corpo e caminha até sua cozinha. Sua casa tem quatro cômodos: banheiro, sala de visitas, cozinha e um quarto. A porta de entrada dá para a sala de visitas, e uma porta á esquerda de quem entra na casa leva para a cozinha. A direita há um corredor onde se encontra a porta do banheiro e no fim a porta de seu quarto. Quando chega a cozinha coloca, em uma chaleira, água esquentar. Pensando apenas em sua mãe que sumira havia três semanas. Temia que o Füher estivesse promovendo uma caça á judeus. Juliana vivia com sua mãe desde os cinco anos de idade, seu pai fora morto por um assaltante. E desde que Hitler tomara o poder estava com medo de sair de casa.

 

Marcelo Straus nem conseguira dormir, faltavam apenas 40 minutos para sua hora de trabalho. Filho de um alemão com uma Brasileira mudara-se para Munique, com seus pais, aos cinco anos de idade. Seus pais morreram em um acidente de carro quando ainda tinha 18 anos. Agora com 30 anos e um emprego estável no serviço inteligente da gestapo pensava estar sua vida sacramentada a isto. Muitas mulheres passaram por sua cama, porém nenhuma delas havia fisgado seu rochoso coração. Atualmente o alto escalão da Gestapo havia lhe dado á missão de identificar Judeus, para que estes fossem fuzilados. “Porcos que não merecem viver.” Pensava em seu alterego. O Füher era a lei suprema, para ele. Acreditava fielmente que somente á raça ariana poderia triunfar. E assim já havia identificado muitos judeus para a forca. Porém após a sua ultima vítima um sonho torturava seu sono, e desde então não conseguia dormir. Sonhava sempre com uma mulher de olhos castanhos chorando ao lado de uma lareira com uma foto que parecia ser da ultima judia que identificara. A mulher olhava para ele e continuava a chorar. Ela tinha um corpo perfeito. Porém quando Marcelo ia ajudá-la um homem fuzilava o rosto da mulher e quando mirava o fuzil para ele, ele acordava. Levantou-se lavou o rosto, trocou de roupa, e foi ao trabalho.

 

A vida realmente havia resolvido ser dura com Juliana. Sua comida estava chegando ao fim. Suas prateleiras estavam quase todas vazias, e teria de racionar alimento se quisesse sobreviver. Não trabalhava, tinha apenas 18 anos de idade, mas e agora?  Estava sem resposta. Uma coisa era certa, não iria sair de casa em hipótese alguma.

 

Quando chegou à sua sala já havia um aviso pendurado em seu mural. “Mais uma casa para averiguar”, pensou. Então se dirigiu automaticamente para seu armário, tirou um terno, uma gravata, uma calça e um sapato e vestiu. Em cima do guarda roupa repousava uma caixa com alguns biscoitos, pegou a caixa e saiu. Chegando á casa bateu na porta e ficou esperando alguns minutos sem resposta. Bateu novamente.

 

Estava deitada lembrando-se de sua mãe, quando ouviu um barulho. “O que será?”, pensou. Foi até a sala e percebeu que alguém batia na porta. Hesitou por alguns minutos pensando que poderia ser a polícia do Füher. Dirigiu-se até a porta e perguntou:

- Quem è?

Quando ouviu a voz, nosso soldado se assustou, porém respondeu:

- Sou um vendedor senhora, vendo biscoitos. E gostaria de saber se você gostaria de comprar alguns.

- Vendedor de biscoitos? Espere um pouco, já abro a porta para você.

Juliana dirigiu-se até ao balcão pegou alguns trocados e abriu a porta.

“Não pode ser, é elaa!”, assustou-se Marcelo. Deixando a caixa de biscoitos cair.

- O que aconteceu senhor?

Nuca havia visto em sua vida, uma face tão doce e tão meiga como aquela da mulher em seu sonho. E Juliana era ela! Era a mulher que chorava. Como pode? Ele não sabia responder. Juntou os biscoitos, ainda em estado de choque. E falou:

- Senhoramechamomarcelosouvendedordesdeosquinzeanosmorosozinhotenhotrintaanos.

- Nossa! Calma senhor. O que aconteceu? Quer um copo de água?

- Nãoseriaumincomodo?

- Entre, entre.

Entrou na sala e sentou-se no sofá. Ainda tenso tentava conter seus pensamentos e se concentrar na sua missão. “Ela pode ser uma judia, uma judia, mas que judia linda! Marcelo, uma judia! Ela tem que morrer!”, sua mente o torturava.

 

“Que homem estranho”, pensou. Levou o copo à torneira, sua mão tremia de nervosismo, encheu o copo de água. “Será que ele é espião?”, olhou mais uma vez para ele. “Espero que não”, e dirigiu-se ao vendedor. Deu-lhe o copo d’água e lhe indagou:

- O que aconteceu?

- A senhora lembra-me de minha mulher. Ela era Judia e sumiu faz dois meses. - respondeu tentando forçar um choro.

- Não fique assim moço. O senhor tem muito a viver ainda. - se aproximou e abraçou-o.

- A senhorita não sabe o que é perder um ente querido, sem ao menos, saber o que aconteceu. – tentou, com sucesso, forçar mais uma vez um choro.

- Sei sim! Minha mãe sumiu há três semanas. Estou sem comida, sem colo, sem amor pela vida. – começou a chorar.

- Vocês são judias?

- Sim, assim como sua mulher era. Como os alemães estão se cegando para esse morticínio?

- Eu também não entendo senhorita. Porcos sem coração. Matando por um racismo idiota. O Füher está louco! – respondeu, como se estivesse falando consigo.

 

Ambos continuaram abraçados e choraram por alguns minutos. Após Marcelo pegou suas coisas e antes que saísse...

- Qual o seu nome nobre vendedor?

- Chamo-me Multzer. Até mais ver... Ah! Pode ficar com os biscoitos.

- Não, e como o senhor vai viver? Eu os compro!- tirou o dinheiro do sutiã e o pagou. - Até mais. – fechou a porta, escorou-se na parede e desabou no chão.

 

Marcelo saiu da casa em estado de choque e ficou vagando sem rumo pelas ruas, por umas duas horas e, ao invés de retornar ao seu batalhão, foi direto para sua casa. Deitou-se transtornado. Seu mundo acabara de desabar. “Como esta maldita faz balançar meu coração?”, pensava. Chorou a noite inteira dando-se conta de que poderia ter levado a mãe daquela linda jovem ao fuzilamento. “Eu a fiz sofrer!”, ficava a se torturar. O amor tem muitos mistérios, e quando percebera que aquela era a menina de seus sonhos viu-se perdidamente apaixonado. “Que bondade, que olhos lindos! E talvez seja eu o carrasco...”, chorando balbuciava.

 

Levantou-se pegou os biscoitos e se dirigiu á cozinha. Lá chegando guardou os biscoitos e partiu a se quarto. Pôs-se a repousar em sua cama, porém não conseguia dormir. “Que homem era aquele? Completamente maluco!”, pensava. Tentara várias vezes dormir, mas as lembranças de Multzer (Marcelo) a ficavam torturando.

Nosso soldado passou sua noite a chorar. Quando já se passavam das sete horas da manhã levantou tomou um banho vestiu-se, comeu e saiu em direção da sede da gestapo. Chegando a seu escritório viu que havia mais casa para averiguar, pegou um disfarce qualquer e foi a seu trabalho. Mais a noite, após averiguar todas as casas, foi a seu escritório colocou seu disfarce de Multzer e foi até a casa da judia e bateu a porta.

 

Não conseguira dormir. Passara o dia todo na cama a chorar por sua mãe e a pensar em Multzer. Já se passava das oito horas da noite quando ouviu a portar bater. “Será que é multzer?”, correu até a porta e perguntou:

- È você Multzer?

Após ouvir a voz de Juliana, seu coração disparou:

- Sou sim minha gentil dama!

Ela então abriu a porta. Estava vestindo traje de dormir, porém seu cabelo estava lindamente escovado e seus olhos fundos, mas lindamente castanhos observavam multzer:

- Entre, senhor.

 

Multzer então deu alguns passos e sentou no sofá. Juliana fechou a porta e sentou a seu lado.

- Quem és tu gentil homem, que faz minhas pernas e meu coração balançarem?

- Oh, minha dama, sou apenas um gentil servo de DEUS!

-Da onde vens? Eis judeu?

- Como podes ver, sou alemão, porém de alma judia. Venho de Berlin, sou filho de uma brasileira com um alemão. E você, conte-me de onde vem esses olhos castanhos e perfeitos?- acariciou o rosto de Juliana com suas mães e a percebeu suspirar.

- São herança de minha mãe. Porém lindos são os teus olhos azuis. – respondeu acariciando também o rosto de multzer. Quando ambos perceberam já estavam se beijando, a mão de multzer acariciava o corpo de Juliana que explorava todo o corpo daquele homem. E ali no sofá, a frente da lareira, ambos descobriram a chama que ardia em seus corpos e entregaram-se um ao outro formando um só corpo. E a partir daquele dia traçava-se mais um história de amor. Marcelo contara toda a verdade a Juliana, que com todo o seu coração e a força do amor que sentia por ele o perdoou. Mudou-se para a casa dela e continuou seu trabalho na Gestapo. Porém o cerco contra os judeus aumentava e fez Juliana pintar seu cabelo de loiro. Após um tempo decidiram fugir para o Brasil, para assim viverem em paz. Chegado o dia de sua viagem ambos encontravam-se no quarto arrumando as malas quando Juliana indagou:

- Será que o Brasil é o lugar certo?

- Fique tranqüila minha linda! Naquela terra a beleza encontra casa e nome. - pegou na mão de Juliana e á beijou. Juliana dirigiu-se até a sala sentou no sofá pegou o retrato de sua mãe e começou a chorar. De repente batidas fortes ecoaram em toda a casa.

- Abram é a polícia!

Marcelo correu para sua mala pegou sua arma e começou a correr para a sala. Ouviu-se outro estrondo, porém mais forte. Quando chegou a sala Juliana chorava segurando o retrato se sua mãe quando um policial gritou:

- Ela é judia!- e atirou em sua cabeça.

Marcelo inconsolado começou a chorar sem parar. Um dos oficiais o reconhecera e impediu que os outros colegas atirassem.

- Minha amada! Não! Que destino cruel me reservaste oh, senhor das trevas e da luz! Espero encontra-la no conforto de seu mundo!- mirou sua arma para sua cabeça e antes mesmo que alguém o pudesse impedir apertou o gatilho. Em sua retina passou todo o filme de sua vida quando uma escuridão tomou conta de si. Os policiais recolheram os corpos, limparam toda a sala e em seu laudo colocaram que ela o havia matado e que eles mataram-na.

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