O sol desperta atrás do
monte. As nuvens caminham sob o azul céu. Juliana, moça judia,
desperta de seu sono e com seus olhos castanhos fita seu quarto.
Joga suas mãos para um canto, liga seu rádio. “O Füher estará
em Munique nesta quarta-feira”, fala o comentarista. Juliana
levanta seu corpo e caminha até sua cozinha. Sua casa tem quatro
cômodos: banheiro, sala de visitas, cozinha e um quarto. A porta de
entrada dá para a sala de visitas, e uma porta á esquerda de quem
entra na casa leva para a cozinha. A direita há um corredor onde se
encontra a porta do banheiro e no fim a porta de seu quarto. Quando
chega a cozinha coloca, em uma chaleira, água esquentar. Pensando
apenas em sua mãe que sumira havia três semanas. Temia que o Füher
estivesse promovendo uma caça á judeus. Juliana vivia com sua mãe
desde os cinco anos de idade, seu pai fora morto por um assaltante.
E desde que Hitler tomara o poder estava com medo de sair de
casa.
Marcelo Straus nem
conseguira dormir, faltavam apenas 40 minutos para sua hora de
trabalho. Filho de um alemão com uma Brasileira mudara-se para
Munique, com seus pais, aos cinco anos de idade. Seus pais morreram
em um acidente de carro quando ainda tinha 18 anos. Agora com 30
anos e um emprego estável no serviço inteligente da gestapo pensava
estar sua vida sacramentada a isto. Muitas mulheres passaram por
sua cama, porém nenhuma delas havia fisgado seu rochoso coração.
Atualmente o alto escalão da Gestapo havia lhe dado á missão de
identificar Judeus, para que estes fossem fuzilados. “Porcos
que não merecem viver.” Pensava em seu alterego. O Füher era
a lei suprema, para ele. Acreditava fielmente que somente á raça
ariana poderia triunfar. E assim já havia identificado muitos
judeus para a forca. Porém após a sua ultima vítima um sonho
torturava seu sono, e desde então não conseguia dormir. Sonhava
sempre com uma mulher de olhos castanhos chorando ao lado de uma
lareira com uma foto que parecia ser da ultima judia que
identificara. A mulher olhava para ele e continuava a chorar. Ela
tinha um corpo perfeito. Porém quando Marcelo ia ajudá-la um homem
fuzilava o rosto da mulher e quando mirava o fuzil para ele, ele
acordava. Levantou-se lavou o rosto, trocou de roupa, e foi ao
trabalho.
A vida realmente havia
resolvido ser dura com Juliana. Sua comida estava chegando ao fim.
Suas prateleiras estavam quase todas vazias, e teria de racionar
alimento se quisesse sobreviver. Não trabalhava, tinha apenas 18
anos de idade, mas e agora? Estava sem resposta. Uma coisa
era certa, não iria sair de casa em hipótese alguma.
Quando chegou à sua sala
já havia um aviso pendurado em seu mural. “Mais uma casa para
averiguar”, pensou. Então se dirigiu automaticamente para seu
armário, tirou um terno, uma gravata, uma calça e um sapato e
vestiu. Em cima do guarda roupa repousava uma caixa com alguns
biscoitos, pegou a caixa e saiu. Chegando á casa bateu na porta e
ficou esperando alguns minutos sem resposta. Bateu
novamente.
Estava deitada
lembrando-se de sua mãe, quando ouviu um barulho. “O que
será?”, pensou. Foi até a sala e percebeu que alguém batia na
porta. Hesitou por alguns minutos pensando que poderia ser a
polícia do Füher. Dirigiu-se até a porta e perguntou:
- Quem è?
Quando ouviu a voz,
nosso soldado se assustou, porém respondeu:
- Sou um vendedor
senhora, vendo biscoitos. E gostaria de saber se você gostaria de
comprar alguns.
- Vendedor de biscoitos?
Espere um pouco, já abro a porta para você.
Juliana dirigiu-se até
ao balcão pegou alguns trocados e abriu a porta.
“Não pode ser, é
elaa!”, assustou-se Marcelo. Deixando a caixa de biscoitos
cair.
- O que aconteceu
senhor?
Nuca havia visto em sua
vida, uma face tão doce e tão meiga como aquela da mulher em seu
sonho. E Juliana era ela! Era a mulher que chorava. Como pode? Ele
não sabia responder. Juntou os biscoitos, ainda em estado de
choque. E falou:
-
Senhoramechamomarcelosouvendedordesdeosquinzeanosmorosozinhotenhotrintaanos.
- Nossa! Calma senhor. O
que aconteceu? Quer um copo de água?
-
Nãoseriaumincomodo?
- Entre,
entre.
Entrou na sala e
sentou-se no sofá. Ainda tenso tentava conter seus pensamentos e se
concentrar na sua missão. “Ela pode ser uma judia, uma judia,
mas que judia linda! Marcelo, uma judia! Ela tem que
morrer!”, sua mente o torturava.
“Que homem
estranho”, pensou. Levou o copo à torneira, sua mão tremia de
nervosismo, encheu o copo de água. “Será que ele é
espião?”, olhou mais uma vez para ele. “Espero que
não”, e dirigiu-se ao vendedor. Deu-lhe o copo d’água e
lhe indagou:
- O que
aconteceu?
- A senhora lembra-me de
minha mulher. Ela era Judia e sumiu faz dois meses. - respondeu
tentando forçar um choro.
- Não fique assim moço.
O senhor tem muito a viver ainda. - se aproximou e
abraçou-o.
- A senhorita não sabe o
que é perder um ente querido, sem ao menos, saber o que aconteceu.
– tentou, com sucesso, forçar mais uma vez um
choro.
- Sei sim! Minha mãe
sumiu há três semanas. Estou sem comida, sem colo, sem amor pela
vida. – começou a chorar.
- Vocês são
judias?
- Sim, assim como sua
mulher era. Como os alemães estão se cegando para esse
morticínio?
- Eu também não entendo
senhorita. Porcos sem coração. Matando por um racismo idiota. O
Füher está louco! – respondeu, como se estivesse falando
consigo.
Ambos continuaram
abraçados e choraram por alguns minutos. Após Marcelo pegou suas
coisas e antes que saísse...
- Qual o seu nome nobre
vendedor?
- Chamo-me Multzer. Até
mais ver... Ah! Pode ficar com os biscoitos.
- Não, e como o senhor
vai viver? Eu os compro!- tirou o dinheiro do sutiã e o pagou. -
Até mais. – fechou a porta, escorou-se na parede e desabou no
chão.
Marcelo saiu da casa em
estado de choque e ficou vagando sem rumo pelas ruas, por umas duas
horas e, ao invés de retornar ao seu batalhão, foi direto para sua
casa. Deitou-se transtornado. Seu mundo acabara de desabar.
“Como esta maldita faz balançar meu coração?”, pensava.
Chorou a noite inteira dando-se conta de que poderia ter levado a
mãe daquela linda jovem ao fuzilamento. “Eu a fiz
sofrer!”, ficava a se torturar. O amor tem muitos mistérios,
e quando percebera que aquela era a menina de seus sonhos viu-se
perdidamente apaixonado. “Que bondade, que olhos lindos! E
talvez seja eu o carrasco...”, chorando
balbuciava.
Levantou-se pegou os
biscoitos e se dirigiu á cozinha. Lá chegando guardou os biscoitos
e partiu a se quarto. Pôs-se a repousar em sua cama, porém não
conseguia dormir. “Que homem era aquele? Completamente
maluco!”, pensava. Tentara várias vezes dormir, mas as
lembranças de Multzer (Marcelo) a ficavam torturando.
Nosso soldado passou sua
noite a chorar. Quando já se passavam das sete horas da manhã
levantou tomou um banho vestiu-se, comeu e saiu em direção da sede
da gestapo. Chegando a seu escritório viu que havia mais casa para
averiguar, pegou um disfarce qualquer e foi a seu trabalho. Mais a
noite, após averiguar todas as casas, foi a seu escritório colocou
seu disfarce de Multzer e foi até a casa da judia e bateu a
porta.
Não conseguira dormir.
Passara o dia todo na cama a chorar por sua mãe e a pensar em
Multzer. Já se passava das oito horas da noite quando ouviu a
portar bater. “Será que é multzer?”, correu até a porta
e perguntou:
- È você
Multzer?
Após ouvir a voz de
Juliana, seu coração disparou:
- Sou sim minha gentil
dama!
Ela então abriu a porta.
Estava vestindo traje de dormir, porém seu cabelo estava lindamente
escovado e seus olhos fundos, mas lindamente castanhos observavam
multzer:
- Entre,
senhor.
Multzer então deu alguns
passos e sentou no sofá. Juliana fechou a porta e sentou a seu
lado.
- Quem és tu gentil
homem, que faz minhas pernas e meu coração balançarem?
- Oh, minha dama, sou
apenas um gentil servo de DEUS!
-Da onde vens? Eis
judeu?
- Como podes ver, sou
alemão, porém de alma judia. Venho de Berlin, sou filho de uma
brasileira com um alemão. E você, conte-me de onde vem esses olhos
castanhos e perfeitos?- acariciou o rosto de Juliana com suas mães
e a percebeu suspirar.
- São herança de minha
mãe. Porém lindos são os teus olhos azuis. – respondeu
acariciando também o rosto de multzer. Quando ambos perceberam já
estavam se beijando, a mão de multzer acariciava o corpo de Juliana
que explorava todo o corpo daquele homem. E ali no sofá, a frente
da lareira, ambos descobriram a chama que ardia em seus corpos e
entregaram-se um ao outro formando um só corpo. E a partir daquele
dia traçava-se mais um história de amor. Marcelo contara toda a
verdade a Juliana, que com todo o seu coração e a força do amor que
sentia por ele o perdoou. Mudou-se para a casa dela e continuou seu
trabalho na Gestapo. Porém o cerco contra os judeus aumentava e fez
Juliana pintar seu cabelo de loiro. Após um tempo decidiram fugir
para o Brasil, para assim viverem em paz. Chegado o dia de sua
viagem ambos encontravam-se no quarto arrumando as malas quando
Juliana indagou:
- Será que o Brasil é o
lugar certo?
- Fique tranqüila minha
linda! Naquela terra a beleza encontra casa e nome. - pegou na mão
de Juliana e á beijou. Juliana dirigiu-se até a sala sentou no sofá
pegou o retrato de sua mãe e começou a chorar. De repente batidas
fortes ecoaram em toda a casa.
- Abram é a
polícia!
Marcelo correu para sua
mala pegou sua arma e começou a correr para a sala. Ouviu-se outro
estrondo, porém mais forte. Quando chegou a sala Juliana chorava
segurando o retrato se sua mãe quando um policial
gritou:
- Ela é judia!- e atirou
em sua cabeça.
Marcelo inconsolado
começou a chorar sem parar. Um dos oficiais o reconhecera e impediu
que os outros colegas atirassem.
- Minha amada! Não! Que
destino cruel me reservaste oh, senhor das trevas e da luz! Espero
encontra-la no conforto de seu mundo!- mirou sua arma para sua
cabeça e antes mesmo que alguém o pudesse impedir apertou o
gatilho. Em sua retina passou todo o filme de sua vida quando uma
escuridão tomou conta de si. Os policiais recolheram os corpos,
limparam toda a sala e em seu laudo colocaram que ela o havia
matado e que eles mataram-na.